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Os inimigos íntimos da democracia

[1939 - 2017] 


Diante do poder econômico desmesurado dos indivíduos ou dos grupos de indivíduos que dispõem de capitais imensos, muitas vezes o poder político se revela fraco demais. Nos Estados Unidos, em nome da liberdade ilimitada de expressão, a Corte Suprema autorizou o financiamento dos candidatos às eleições pelas empresas; concretamente, isso significa que aqueles que têm mais dinheiro podem impor os candidatos de sua escolha. O presidente do país, seguramente um dos homens mais poderosos do planeta, precisou renunciar a promover uma reforma equitativa dos seguros de saúde, a regulamentar as atividades dos bancos, a diminuir os danos ecológicos causados pelo modo de vida de seus concidadãos... Ora, não é livre o homem doente que não tem os meios para se tratar, o homem posto na rua porque não consegue pagar sue empréstimo bancário. Chega-se então ao paradoxo de que a liberdade individual, em cujo nome é rejeitada qualquer intervenção do Estado, fica impedida pela irrestrita liberdade concedida ao mercado e às empresas. 

[...] 

Em abril de 2010, explode uma plataforma da empresa BP no golfo do México, provocando a maior maré negra na história dos Estados Unidos; descobre-se nessa ocasião que a comissão governamental que concede as licenças de perfuração e controla as companhias petrolíferas se compõe essencialmente de antigos empregados dessas mesmas companhias! A liberdade ilimitada dos agentes econômicos não garante, é o mínimo que se pode dizer, a proteção ao meio ambiente, que no entanto é um bem comum. Deixadas sem controle, as companhias petrolíferas escolhem materiais de construção baratos e portanto não muito confiáveis. Não é de espantar: não sendo indivíduos dotados de uma consciência, as empresas não sentem nenhum remorso por se deixarem guiar unicamente pela busca do lucro. A limitação desse apetite só pode provir de uma instância externa à lógica econômica. 

[...] 

Fukushima se produziu depois de um terremoto e do tsunami que o acompanhou. Ora, essa central fora construída em um determinado lugar - à beira-mar, numa zona altamente sísmica, não longe das grandes cidades - por mais comodidade e, em última análise, porque essa solução era a mais rentável para aqueles que asseguravam sua exploração. A explosão não foi efeito de uma catástrofe natural, mas do conluio entre operadores privados e burocratas governamentais. A extração do gás de xisto rende muito àqueles que a praticam; eles preferem comprar os responsáveis políticos e indenizar os habitantes, em vez de pensar nos efeitos a longo prazo de sua ação. O mesmo ocorre quanto aos outros abusos tecnológicos: o que motiva o uso imediato e imoderado das novas tecnologias não é a aspiração ao conhecimento, mas o desejo de enriquecer, sem preocupar-se com as consequências sobre os outros seres humanos, presentes ou vindouros. E não é somente a cupidez que faz agir assim: os responsáveis por essas escolhas são igualmente ofuscados pela vertigem do poder, pelo orgulho que extraem do fato de controlar as alavancas de uma tal potência, e portanto de decidir sobre o futuro de uma população numerosa. 


Tzvetan Todorov 
Trad.:Joana Melo

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