Na utopia com a qual costumo sonhar, todo mundo escreveria e leria. Um silêncio carregado de pensamentos trocados relegaria as falações supérfluas às margens da existência. A concentração mental tomaria o lugar das tonitruâncias do verbo não-dominado. As falas seriam mais raras, porém mais bem ajustadas. Elas ressoariam com uma vitalidade e uma sinceridade que geralmente não se vêem no ruído universal da jactância midiática. Econômico em discursos, o humano se reaproximaria da natureza, segundo a intenção de Rousseau. O chumbo da linguagem valeria tanto quanto o ouro do silêncio. Se fizesse isso, o mundo talvez viesse a se parecer um pouco mais com uma assembleia de velhos sábios unidos pelo amor aos livros. Talvez faltasse a tensão vital de uma resistência que o mundo real provoca entre aqueles que têm dificuldade em suportar as crueldades, as cegueiras e os absurdos. Como escrever sem nunca correr o risco de ser ferido? Se tudo corresse por conta, só restaria fazer literatura. Mas como nada corre por conta, a não ser aquilo que se encaminha para a própria perda, e rapidamente nos tempos que correm - quero falar de formas mais civilizadas de intercâmbio - a escrita obstinada, que força a refletir, segue sendo uma das armas mais eficazes contra a selvageria. Cada um com seus próprio meios pode facilmente se apoderar dela.
Georges Picard
Tradução de Marcos M.
