Pular para o conteúdo principal

Regresso ao admirável mundo novo


Como são quimericamente enganadoras as descrições líricas da Idade Média, com as quais muitos teoristas contemporâneos das relações sociais adornam as suas obras! "O fato de pertencer a uma guilda, a um domínio senhorial ou a uma aldeia protegia o homem medieval durante sua vida e oferecia-lhe paz e serenidade." Protegia-o de quê, pode-se saber? Certamente, não de maus tratos que o seus senhores lhe infligiam sem remorsos. E do mesmo modo que toda essa "paz e serenidade" havia, através de toda a Idade Média, uma grande onda de frustração crônica, infelicidade aflitiva e um ressentimento arrebatado contra o rígido e hierárquico sistema que não permitia qualquer movimento vertical rumo ao topo da escala social e, para aqueles que estavam presos à terra, muito pouco movimento horizontal no espaço. As forças impessoais da superpopulação e da superorganização, e os engenheiros sociais que estão tentando dirigir essas forças, estão a impelir-nos em direção a um novo sistema medieval. Este ressurgimento será mais aceitável do que o original, através de algumas amenidades do Admirável Mundo Novo, tais como o condicionamento pré-natal, o ensino durante o sono e a euforia provocada por drogas; mas, para a maioria dos homens e das mulheres, isso será ainda um tipo de servidão.

Aldous Huxley

1894 - 1963



Postagens mais visitadas deste blog

A Modest Proposal

For preventing the children of poor people in Ireland, from being a burden on their parents or country, and for making them beneficial to the publick. Jonathan Swift | 1729 It is a melancholy object to those, who walk through this great town, or travel in the country, when they see the streets, the roads, and cabbin-doors crowded with beggars of the female sex, followed by three, four, or six children, all in rags, and importuning every passenger for an alms. These mothers, instead of being able to work for their honest livelihood, are forced to employ all their time in stroling to beg sustenance for their helpless infants who, as they grow up, either turn thieves for want of work, or leave their dear native country, to fight for the Pretender in Spain, or sell themselves to the Barbadoes. I think it is agreed by all parties, that this prodigious number of children in the arms, or on the backs, or at the heels of their mothers, and frequently of their fathers, is in the present dep...

Escravidão

O escravo é uma propriedade como o gado o é, e não como uma coisa inanimada. Sua liberdade de movimentos lembra a de um animal ao qual se permite pastar e fundar algo como uma família. O verdadeiro caráter de uma coisa é sua impenetrabilidade. Ela pode ser chutada e empurrada, mas é incapaz de armazenar ordens. A definição jurídica do escravo como coisa e como propriedade é, pois, enganosa. Ele é um animal e uma propriedade . É antes com um cão que se pode comparar um escravo. O cão capturado foi retirado do seio de sua matilha: foi isolado . Está sob as ordens de seu dono. Abre mão de suas próprias iniciativas, na medida em que estas contrariem tais ordens, e, como recompensa por isso, é por ele alimentado. Alimento e ordem possuem assim, tanto para o cão quanto para o escravo, uma mesma fonte - seu dono - e, nesse sentido, não é totalmente inadequado comparar-lhes o status ao das crianças. O que, porém, os diferencia destas tem a ver com a maneira como administram as metamorfoses. A...

Brasil: colônia fascista

O brasileiro necessita de uma grande morte coletiva para jogar fora tudo o que o nazifascismo deixou no coração enferrujado, no coração recheado de deus, no coração coagulado de sangue seco e intoxicado, covardia e preguiça.