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Franceses, mais um esforço se quereis ser republicanos

Retrato do autor de Justine

Não é mais aos pés de um ser imaginário ou de um vil impostor que um republicano deve ser curvar; seus únicos deuses devem ser doravante a coragem e a liberdade.

O ateísmo é no presente o único sistema dos que sabem raciocinar.

Conservemos hoje o mesmo desprezo, tanto pelo deus vão que os impostores pregam como por todas as sutilezas religiosas decorrentes de sua ridícula adoção. Os homens livres não se deixam mais iludir por um chocalho como esse. Que a extinção total dos cultos faça parte dos princípios que propagamos por toda Europa. Não nos contentemos em quebrar os cetros; pulverizemos para sempre os ídolos. A superstição esteve sempre a um passo do realismo. E é preciso que assim seja, sem dúvida, já que um dos primeiros artigos da sagração dos reis manteve sempre a religião dominante como uma das melhores bases políticas de sustentação do trono. Mas uma vez abatido esse trono, felizmente para sempre, não receemos extirpar também o que lhe servia de apoio.

Sim, cidadãos, a religião é incoerente com o sistema da liberdade; já o sentistes. O homem livre jamais se curvará aos deuses do cristianismo; jamais seus dogmas, seus ritos, seus mistérios ou sua moral convirão a um republicano. [...] Deixemos de acreditar que a religião possa ser útil ao homem. [...] não queremos mais o quimérico autor de um universo que se move por si mesmo, não queremos mais um deus sem extensão e que todavia preenche tudo com sua imensidade, um deus todo-poderoso que jamais executa o que deseja, um ser soberanamente bom que só faz descontentes, um ser amigo da ordem, e em cujo governo só há desordem. Não, não queremos mais um deus que perturba a natureza, que é o pai da confusão, que move o homem no instante em que ele se entrega aos horrores. Um deus como este nos faz tremer de indignação e nós o relegamos para sempre ao esquecimento.

Nós recolocamos os emblemas da liberdade sobre as bases que outrora sustentavam os tiranos.

Cessemos de temer o efeito do ateísmo em nossas aldeias. [...] o teísmo é, por sua essência e natureza, o mais mortal inimigo da liberdade que servimos. 

Substituí as tolices deíficas com que fatigais as jovens vozes de vossas crianças por excelentes princípios sociais; que em lugar de aprender a recitar preces fúteis que farão a glória de esquecer aos dezesseis anos, elas sejam instruídas de seus deveres na sociedade; ensinai-lhes a amar as virtudes de que lhe faláveis antigamente, e que, sem vossas fábulas religiosas, são suficientes para a sua felicidade pessoal. [...] Que se evite, pois, com o maior cuidado, misturar alguma fábula religiosa a essa educação nacional. Não percamos jamais de vista que são homens livres que desejamos formar e não vis adoradores de um deus. [...] Se eles quiserem absolutamente que vós faleis de um criador, respondei-lhes que as coisas tendo sido sempre o que são, não tendo havido jamais um começo e não devendo ter jamais um fim, é tão inútil quanto impossível ao homem remontar a uma origem imaginária que nada explicaria ou faria avançar. Dizei-lhes ser impossível aos homens ter ideias verdadeiras sobre um ser que não age em nenhum de nossos sentidos.

Quando se tem medo, cessa-se de raciocinar; e que principalmente quando se recomenda que se desconfie da razão e quando o cérebro é perturbado, acredita-se em tudo e nada se examina. A ignorância e o medo, ainda direis a eles, são as duas bases de todas as religiões.

Marquês de Sade
1740 - 1814

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