Pular para o conteúdo principal

O mundo assombrado pelos demônios

 

Somos bombardeados regularmente com relatos extravagantes de UFOs divulgados por publicações sensacionalistas, mas é raro ouvirmos algo sobre a sua merecida reprovação. Isso não é difícil de compreender: o que vende mais jornais e livros, o que acumula ibope mais elevados, o que é mais divertido de acreditar, o que repercute mais os tormentos de nosso tempo - naves alienígenas acidentadas ou trapaceiros experientes pilhando os crédulos? Extraterrestres de imenso poderes brincando com a espécie humana, ou o fato de esses relatos se originarem de fraquezas e imperfeições humanas?

Sempre me impressionou o modo como a questão é formulada, a sugestão de que não se trata de um problema de evidência, mas de crença. Nunca me perguntaram: "É de boa qualidade a evidência de que os UFOs são espaçonáveis alienígenas?".

Descobri que a atitude crédula de muitas pessoas é bastante predeterminada. Algumas serão convencidas de que o depoimento de testemunhas oculares é confiável, de que as pessoas não inventam histórias, de que são impossíveis alucinações ou brincadeiras em tão grande escala, e de que só pode haver uma conspiração governamental de alto nível e longa duração para nos manter ignorantes da verdade. A credulidade a respeito dos UFOs se nutre da desconfiança difundida contra o governo, que nasce muito naturalmente de todas aquelas circunstâncias em que - na tensão entre o bem-estar público e a "segurança nacional".

As bandeiras de alerta contra a falsificação se agitam. Como são elevadas as recompensas da falsificação no mercado de arte, os colecionadores devem ser muito cautelosos.

Há muitos casos na história humana de natureza semelhante - em que de repente aparece um documento de procedência dúbia, trazendo informações de grande importância que confirmam vigorosamente as ideias dos que o descobriram. Depois de uma investigação cuidadosa e, em alguns casos, corajosa, comprova-se que o documento é uma mistificação. Não é difícil compreender a motivação dos mistificadores. Um exemplo mais ou menos típico é o livro do Deuteronômio - descoberto escondido no templo de Jerusalém pelo rei Josias, que, milagrosamente, em meio a uma importante luta por reformas, encontrou no Deuteronômio a confirmação de todas as suas ideias.

Carl Sagan
1934 - 1996

Postagens mais visitadas deste blog

A Modest Proposal

For preventing the children of poor people in Ireland, from being a burden on their parents or country, and for making them beneficial to the publick. Jonathan Swift | 1729 It is a melancholy object to those, who walk through this great town, or travel in the country, when they see the streets, the roads, and cabbin-doors crowded with beggars of the female sex, followed by three, four, or six children, all in rags, and importuning every passenger for an alms. These mothers, instead of being able to work for their honest livelihood, are forced to employ all their time in stroling to beg sustenance for their helpless infants who, as they grow up, either turn thieves for want of work, or leave their dear native country, to fight for the Pretender in Spain, or sell themselves to the Barbadoes. I think it is agreed by all parties, that this prodigious number of children in the arms, or on the backs, or at the heels of their mothers, and frequently of their fathers, is in the present dep...

Escravidão

O escravo é uma propriedade como o gado o é, e não como uma coisa inanimada. Sua liberdade de movimentos lembra a de um animal ao qual se permite pastar e fundar algo como uma família. O verdadeiro caráter de uma coisa é sua impenetrabilidade. Ela pode ser chutada e empurrada, mas é incapaz de armazenar ordens. A definição jurídica do escravo como coisa e como propriedade é, pois, enganosa. Ele é um animal e uma propriedade . É antes com um cão que se pode comparar um escravo. O cão capturado foi retirado do seio de sua matilha: foi isolado . Está sob as ordens de seu dono. Abre mão de suas próprias iniciativas, na medida em que estas contrariem tais ordens, e, como recompensa por isso, é por ele alimentado. Alimento e ordem possuem assim, tanto para o cão quanto para o escravo, uma mesma fonte - seu dono - e, nesse sentido, não é totalmente inadequado comparar-lhes o status ao das crianças. O que, porém, os diferencia destas tem a ver com a maneira como administram as metamorfoses. A...

Your mobile always rings (or so you hope)

One message flashes on the screen in hot pursuit of another. Your fingers are always busy: you squeeze the keys, calling new numbers to answer the calls or composing messages of your own. You stay connected – even though you are constantly on the move, and though the invisible senders and recipients of calls and messages move as well, all following their own trajectories. Mobiles are for people on the move. You never leave your mobile out of sight. Your jogging gear has a special pocket for your mobile, and you would not go out with that pocket empty just as you would not go running without your training shoes. As a matter of fact, you would go nowhere without your mobile (’nowhere’ is, indeed, the space without a mobile, with a mobile out of range, or a mobile with a flat battery). And once with your mobile, you are never out or away. You are always in – but never locked up in one place. Cocooned in a web of calls and messages, you are invulnerable. Those around you cannot blackball y...