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Os suicidas

1932 - 2016

O culto nasce num momento de crise ("espiritual", social, econômica) atraindo por um lado os verdadeiros pobres e por outro os "ricos" que sofrem de síndrome de autopunição, e anuncia o fim do mundo e a vinda do anticristo.

Não raro drogas ou práticas de auto-sugestão são levadas adiante para obter a coesão psicológica do grupo. O chefe passa por fases sucessivas de divinização. O grupo passa da autoflagelação à ação violenta em relação aos infiéis e, logo a seguir, à violência sobre si próprio, por desejo de martírio. De um lado irrompe um delírio de perseguição, do outro, a diversidade do grupo desencadeia uma verdadeira perseguição em que se atribuem ao grupo inclusive delitos que ele não cometeu.

O milenarismo nasce de uma incerteza social e explode nos momentos de crise histórica, em outros países ele pode encarnar-se em formas socialmente positiva (a revolução, a grande conquista, a luta contra o tirano, até mesmo a busca não-violenta do martírio, como para os primeiros cristãos, e, em todos esses casos, ele é amparado por uma teoria bastante sólida que permite a justificativa social do próprio sacrifício), ou imitar as formas historicamente positivas, mas ficando à margem das justificativas sociais. Numa sociedade como a norte-americana, onde já não existe mais um objeto contra o qual medir-se, como era o tempo da guerra do Vietnã, onde a sociedade permite também ao marginal receber o salário-desemprego, mas onde a solidão e a mecanização da vida impelem as pessoas à droga ou a falarem sozinhas na esquina, a procura de um culto substitutivo torna-se frenética.

Umberto Eco


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A Modest Proposal

For preventing the children of poor people in Ireland, from being a burden on their parents or country, and for making them beneficial to the publick. Jonathan Swift | 1729 It is a melancholy object to those, who walk through this great town, or travel in the country, when they see the streets, the roads, and cabbin-doors crowded with beggars of the female sex, followed by three, four, or six children, all in rags, and importuning every passenger for an alms. These mothers, instead of being able to work for their honest livelihood, are forced to employ all their time in stroling to beg sustenance for their helpless infants who, as they grow up, either turn thieves for want of work, or leave their dear native country, to fight for the Pretender in Spain, or sell themselves to the Barbadoes. I think it is agreed by all parties, that this prodigious number of children in the arms, or on the backs, or at the heels of their mothers, and frequently of their fathers, is in the present dep...

Your mobile always rings (or so you hope)

One message flashes on the screen in hot pursuit of another. Your fingers are always busy: you squeeze the keys, calling new numbers to answer the calls or composing messages of your own. You stay connected – even though you are constantly on the move, and though the invisible senders and recipients of calls and messages move as well, all following their own trajectories. Mobiles are for people on the move. You never leave your mobile out of sight. Your jogging gear has a special pocket for your mobile, and you would not go out with that pocket empty just as you would not go running without your training shoes. As a matter of fact, you would go nowhere without your mobile (’nowhere’ is, indeed, the space without a mobile, with a mobile out of range, or a mobile with a flat battery). And once with your mobile, you are never out or away. You are always in – but never locked up in one place. Cocooned in a web of calls and messages, you are invulnerable. Those around you cannot blackball y...

Ouvindo o silêncio

Comumente pensamos no silêncio como negativo, a mera ausência de som. Silêncios - é melhor pensar no plural -  podem ser longos ou curtos. Diferem em qualidade, bem como em quantidade. Podem ser naturais ou culturais, por exemplo, normais ou patológicos. Podem ser voluntários ou forçados, espontâneos ou estratégicos, quentes ou frios - como os ingleses às vezes dizem, "um silêncio de pedra". A ausência de fala pode igualmente expressar reserva ou humildade. Um silêncio desdenhoso ou insolente precisa ser distinguido de um silêncio ameaçador. As pessoas ficam sem fala por espanto, constrangimento ou até fúria. Em suma, o silêncio não é um fenômeno puramente negativo. O silêncio do professor experimentado é diferente também dos exemplos que acabei de citar. É a arte de fazer uma pergunta difícil e então dar ao aluno tempo suficiente para meditar, para elaborar uma resposta. Nos mosteiros zenbudistas, assim contam, o professor é preparado para esperar anos por uma boa resposta. ...