Pular para o conteúdo principal

Der Antichrist


O tom com que um mártir lança ao rosto do mundo o que considera verdadeiro já exprime um grau tão baixo de retidão intelectual, tamanha obtusidade para a questão da verdade, que jamais é preciso refutar um mártir. [...] A conclusão de todos os idiotas, incluindo as mulheres e o povo, de que deve haver algo numa causa pela qual alguém morre (ou que até mesmo, como o cristianismo inicial, produz epidemias de ânsia de morte) - essa conclusão tornou-se um enorme entrave ao exame, ao espírito de exame e à cautela. Os mártires prejudicaram a verdade... Ainda hoje basta a crueza de uma perseguição para dar ao mais insignificante sectarismo um nome respeitável. Como? Altera o valor de algo o fato de alguém dar a vida por ele? Um erro que se torna respeitável é um erro que possui um encanto de sedução a mais: acreditem vocês, senhores teólogos, que lhes daríamos ocasião de se fazerem de mártires para a sua mentira? Refuta-se algo colocando-o atenciosamente sobre o gelo - da mesma forma refuta-se um teólogo... Foi essa estupidez de todos os perseguidores ao longo da história, dar à causa oposta a aparência de algo honroso - presenteá-la com o fascínio do martírio... Ainda hoje a mulher está de joelhos diante de um erro, porque lhe disseram que por ele alguém morreu na cruz. Então a cruz é um argumento? Mas acerca de todas essas coisas apenas um indivíduo disse a palavra que havia milênios era necessária - Zaratustra.

Sinais de sangue eles escreveram no caminho que percorriam, e sua loucura ensinava que a verdade se prova com o sangue.

Mas o sangue é o pior testemunho da verdade; o sangue envenena ainda a mais pura doutrina, tornando-a ilusão e ódio.

E se alguém atravessa o fogo por sua doutrina - que demonstrava isso? Mais vale, verdadeiramente, que da sua própria fogueira venha sua doutrina.


Friedrich Nietzsche

1844 - 1900


Postagens mais visitadas deste blog

A Modest Proposal

For preventing the children of poor people in Ireland, from being a burden on their parents or country, and for making them beneficial to the publick. Jonathan Swift | 1729 It is a melancholy object to those, who walk through this great town, or travel in the country, when they see the streets, the roads, and cabbin-doors crowded with beggars of the female sex, followed by three, four, or six children, all in rags, and importuning every passenger for an alms. These mothers, instead of being able to work for their honest livelihood, are forced to employ all their time in stroling to beg sustenance for their helpless infants who, as they grow up, either turn thieves for want of work, or leave their dear native country, to fight for the Pretender in Spain, or sell themselves to the Barbadoes. I think it is agreed by all parties, that this prodigious number of children in the arms, or on the backs, or at the heels of their mothers, and frequently of their fathers, is in the present dep...

Ouvindo o silêncio

Comumente pensamos no silêncio como negativo, a mera ausência de som. Silêncios - é melhor pensar no plural -  podem ser longos ou curtos. Diferem em qualidade, bem como em quantidade. Podem ser naturais ou culturais, por exemplo, normais ou patológicos. Podem ser voluntários ou forçados, espontâneos ou estratégicos, quentes ou frios - como os ingleses às vezes dizem, "um silêncio de pedra". A ausência de fala pode igualmente expressar reserva ou humildade. Um silêncio desdenhoso ou insolente precisa ser distinguido de um silêncio ameaçador. As pessoas ficam sem fala por espanto, constrangimento ou até fúria. Em suma, o silêncio não é um fenômeno puramente negativo. O silêncio do professor experimentado é diferente também dos exemplos que acabei de citar. É a arte de fazer uma pergunta difícil e então dar ao aluno tempo suficiente para meditar, para elaborar uma resposta. Nos mosteiros zenbudistas, assim contam, o professor é preparado para esperar anos por uma boa resposta. ...

Socialism and religion

Present-day society is wholly based on the exploitation of the vast masses of the working class by a tiny minority of the population, the class of the landowners and that of the capitalists. It is a slave society, since the “free” workers, who all their life work for the capitalists, are “entitled” only to such means of subsistence as are essential for the maintenance of slaves who produce profit, for the safeguarding and perpetuation of capitalist slavery. Religion is one of the forms of spiritual oppression which everywhere weighs down heavily upon the masses of the people, over burdened by their perpetual work for others, by want and isolation. Impotence of the exploited classes in their struggle against the exploiters just as inevitably gives rise to the belief in a better life after death as impotence of the savage in his battle with nature gives rise to belief in gods, devils, miracles, and the like. Those who toil and live in want all their lives are taught by religion to be sub...