Comumente pensamos no silêncio como negativo, a mera ausência de som.
Silêncios - é melhor pensar no plural - podem ser longos ou curtos. Diferem em qualidade, bem como em quantidade. Podem ser naturais ou culturais, por exemplo, normais ou patológicos. Podem ser voluntários ou forçados, espontâneos ou estratégicos, quentes ou frios - como os ingleses às vezes dizem, "um silêncio de pedra". A ausência de fala pode igualmente expressar reserva ou humildade. Um silêncio desdenhoso ou insolente precisa ser distinguido de um silêncio ameaçador. As pessoas ficam sem fala por espanto, constrangimento ou até fúria. Em suma, o silêncio não é um fenômeno puramente negativo.
O silêncio do professor experimentado é diferente também dos exemplos que acabei de citar. É a arte de fazer uma pergunta difícil e então dar ao aluno tempo suficiente para meditar, para elaborar uma resposta. Nos mosteiros zenbudistas, assim contam, o professor é preparado para esperar anos por uma boa resposta. Sócrates era um mestre deste método e perdemos mais do que imaginamos ao ouvir um relato de suas palavras em vez de ouvi-lo diretamente. Depois de dois mil anos não podemo mais escutar seus silêncios claramente.
Em outras palavras, vale a pena tentar ouvir silêncios, por mais difícil que possa ser às vezes interpretá-los. Atos de silêncio humanos, como os linguistas os chamam, sempre tiveram um significado, consciente ou inconsciente, embora alguns silêncios possam ser mais ricos ou significativos do que outros, silêncios significativos ou eloquentes, como às vezes os chamamos, quer ocorram em discursos, sermões, peças teatrais (notadamente as de Samuel Beckett e Harold Pinter) ou em interpretações musicais. Esses silêncios são eloquentes porque são pausas sincronizadas, deliberadas, o equivalente a espaços vazios na arquitetura ou na pintura. Podem ser ainda mais eficazes quando são inesperados.
Em outras palavras, o silêncio é uma arte, como nossos ancestrais costumavam dizer, a arte de prender ou refrear nossa língua. É uma habilidade que se pode e, de fato, se deveria aprender. Poderia ser encarado como uma forma de conhecimento, o conhecimento de quando e onde e em que situação é melhor não falar. Ou, conforme o colocam hoje os sociolinguistas, o silêncio é em si uma forma de comunicação que - como qualquer outra - tem regras e convenções.
O exemplo mais notável e elaborado que conheço de comunicação silenciosa vem do Extremo Oriente. Era conhecido como conversa de pincéis, nos dias em que pincéis, e não penas, eram usados para escrever tanto na China como no Japão. O sentido da expressão é que chineses e japoneses não conseguem entender a língua falado um do outro. Por outro lado, os caracteres escritos ou ideogramas são igualmente legíveis e têm o mesmo significado nas duas culturas. Como resultado dessa herança escrita comum, um chinês e um japonês podem usar caneta e papel para conversar, reconhecendo o ideograma para montanha, por exemplo, embora o chinês o leia como shan e o japonês como yama (como em Fujiyama, Monte Fuji).
Num certo sentido, porém, a maioria de nós se engaja em comunicação silenciosa todo dia, acenando com a cabeça, piscando, erguendo uma sobrancelha, colocando um dedo sobre os lábios ou erguendo os olhos para o céu, para não mencionar outros gesto menos educados por trás do volante de um carro.
As regras da conversação se preocupam com quem diz o quê para quem, quando e onde. Costumavam ser formais, descritas como "leis da conversação". Hoje, acreditamos que nos liberamos de tudo aquilo, mas uma boa parte do tempo ainda obedecemos àquelas leis, conscientemente ou não. Elas incluem seus opostos, as leis do silêncio, ocupadas com o que não pode ser dito: quando, onde por quem e também, é claro, sobre o quê, em outras palavras, os temas que são tabu.
Essas regras variam de lugar para lugar, de um meio social ou ocasião para outro ou outra e de época para época. Existe uma geografia, uma sociologia e uma história do silêncio. Vamos começar com a geografia. Alguns povos falam menos do que outros, ou europeus do norte, por exemplo, menos do que os do sul, como os italianos e gregos. Minha impressão dos brasileiros é que eles acham que os britânicos são inatural, incrível e até patologicamente silenciosos. Os britânicos, por sua vez, acham que os suecos são bastante silenciosos, um estereótipo reforçado por um famoso filme dirigido por Ingmar Bergman, O Silêncio (1963). Para os suecos, por outro lado, o povo silencioso é par excellence o finlandês.
Vamos ficar com os ingleses por um momento. Somos realmente tão silenciosos, ou essa imagem é apenas outro estereótipo inexato? Na medida do que sei, nenhum sociolinguista tentou medir as diferenças nacionais do silêncio, embora não fosse difícil demais fazer uma experiência desse tipo. Ainda assim, contar os segundos de silêncio não é a única maneira de estudar a questão. Vejam o vocabulário, por exemplo. Os britânicos têm muitas maneiras de descrever as pessoas que falam demais e a maioria delas é pejorativa. Essas pessoas são descritas como matracas ou tagarelas, como loquazes ou faladoras, verborrágicas e assim por diante. "Ela seria capaz de arrancar a pata traseira de uma mula de tanto falar" é uma expressão tradicional de crítica que ainda hoje pode ser ouvida. Os ingleses parecem ser muito menos críticos em relação a pessoas que falam muito pouco. Na verdade, dizem que algumas mulheres preferem "um homem forte e silencioso".
Vamos abordar o problema sob outro ângulo, a experiência de conversar, ou tentar conversar, numa cultura em que as regras são diferentes das nossas, ainda que a diferença pareça pequena. Passei um bom tempo em culturas latinas, da Itália ao Brasil, e muito desse tempo foi gasto em conversação. Desfrutei realmente essa experiência, embora esteja bastante seguro de que nessas culturas fui considerado uma pessoa um tanto silenciosa. Uma razão para o meu silêncio é que fui criado na crença de que é falta de educação interromper as pessoas, por isso espero que terminem de falar. Mas elas nunca terminam!
Mais exatamente, as culturas diferem na duração da pausa depois da qual é considerado aceitável entra na conversação. Os ingleses esperam um segundo a mais do que os latinos. Talvez nem seja um segundo, mas uma fração de segundo, não tentei medi-la. O fato é que essa demora, por mais curta que seja, é fatal, porque alguém sempre salta à minha frente. Assim, quase não consigo falar nada, pelo menos em grupos de quatro ou mais pessoas, a não ser que alguém me faça uma pergunta direta e espere pela resposta.
A principal conclusão dessa tentativa de penetrar no silêncio inglês é a conclusão óbvia, e no entanto importante, de que quase tudo é relativo, inclusive o silêncio. No século XVII, quando os ingleses começaram a colonizar a Nova Inglaterra, observaram o fato de que os vizinhos índios menosprezavam a tagarelice ainda mais do que eles. Alguns povos índios da América do Norte, como os apaches do Oeste, que vivem no Arizona, ainda são notórios por guardar o silêncio quando se encontram com estrangeiros, ou nos estágios iniciais do namoro, ou quando os filhos se encontram com os pais depois de uma longa ausência; em outras palavras, sempre que uma pessoa ou uma situação lhes é incomum. Nessas ocasiões, o apache "desiste das palavras", como definem, até que se tenha acostumado ao novo estado das coisas.
Em outras palavras, o silêncio não é apenas uma questão de algumas pessoas - ou de alguns povos - se refreando de fazer longos discursos. Igualmente importante, existem consideráveis diferenças culturais no que se poderia chamar de tolerância para o silêncio de outros povos, diferenças a quantidade de tempo que leva para o silêncio tornar uma situação constrangedora.
A tolerância inglesa para o silêncio, embora distintamente mais baixa do que a dos finlandeses ou dos apaches, tem sido há muito tempo o suficiente para surpreender muitos visitantes estrangeiros. Um visitante suíço do século XVIII, por exemplo, deixou-nos uma descrição vívida de jantares em casas de campo inglesas, os cavalheiros retirando-se para a sala de fumar não para conversar, menos ainda para debater, mas para tragar o seu cachimbo e ocasionalmente, para impedir que o silêncio ficasse muito frio, lançar uma frase tipo "Como vai você?"
O visitante estrangeiro, eu deveria acrescentar, achou esse costume um pouco estranho, mas não de todo sem atrativos. Na verdade, deu a ele uma interpretação notavelmente caridosa, elogiando a sinceridade de um povo que não falava quando não tinha nada para dizer, e contrastando esse autocontrole com a loquacidade dos franceses. Ingleses do século XVIII parecem ter sido bem menos caridosos consigo mesmos e até faziam piadas a esses respeito. Numa época em que os clubes estavam se tornando moda em Londres e em outros locais, o famosos jornal The Spectator descrevia a fundação de um Mum Club (Clube do Segredo), cujos membros não tinham permissão de falar uns com os outros. E assim, quando nos anos 1950 o dramaturgo romeno-francês Eugène Ionesco satirizou um típico casal inglês em sua comédia A cantora careca, incluindo em suas notações cênicas "um longo momento de silêncio inglês", situava-se dentro de uma longa tradição. Sem palavras, por favor, somo britânicos.
Estereótipos são ótimos no palco, mas temos de tomar cuidado para não confundi-los com a realidade. Por esse motivo, precisamente a fim de minar o tradicional estereótipo britânico do italiano falante, gostaria de fazer algumas observações sobre a história do silêncio na Itália. Vou concentrar-me no século XVI, a era de algumas famosas discussões sobre a arte da conversação por Baldassare Castaglione, Giovanni Della Casa e Stefano Guazzo. Vamos voltar para as leis da conversação - quem diz o quê a quem, quando e onde - e traduzir essas leis para o silêncio. Quem exatamente deveria ser silencioso, segundo esses escritores? Em primeiro lugar, criança na presença de adultos. A ideia de que crianças não deveriam ser vistas nem ouvidas não foi uma invenção dos britânicos no período vitoriano. É muito mais antiga e mais difundida do que isso.
Em segundo lugar, as mulheres deveriam guardar o silêncio, especialmente em público, em outras palavras, na presença de homens que não eram seus parentes. O silêncio era um sinal de modéstia feminina. Até uma proposta de casamento, segundo um moralista italiano, não deveria receber uma resposta, o silêncio sendo suficiente para significar o consentimento. "Por silêncio", outro livro italiano sobre conduta nos conta, "as mulheres atingem a fama da eloquência." Ele não se referia aos eloquentes olhares pelos quais as senhoras de Gênova em particular eram notórias. "Elas sabem como escrever toda uma carta com um único olhar", declarou um visitante. Ao contrário, o silêncio que os livros elogiavam nas mulheres era o da submissão.
Mais surpreendente, talvez, é descobrir que homens adultos recebiam a recomendação de falar pouco na Itália. A reserva era um indício de discrição. Um provérbio italiano recomendava manter os olhos abertos e a boca fechada. Outro lembrava aos ouvintes que eles tinham duas orelhas e só uma boca. O objetivo de todos esses conselhos era prático, mais do que moral: não revelar assuntos privados para pessoas desconhecidas e não fornecer informações em demasia para rivais ou inimigos potenciais. Esses livros italianos de etiqueta expressam o que se poderia chamar uma cultura da desconfiança, em que outras pessoas, pelo menos fora da família, são consideradas hostis ou, pelo menos, preparadas para tirar vantagem de qualquer fraqueza. O silêncio era um escudo. Esse silêncio da discrição, como o poderíamos chamar, era recomendado a homens adultos, em contraste com o silêncio da submissão esperado das mulheres e crianças.
Essas regras não eram absolutas, claro. Em alguns locais, das cortes aos mosteiros, e em algumas ocasiões, o silêncio era considerado especialmente importante. Os italianos aparentemente conversavam no teatro durante o espetáculo. Por outro lado, eram aparentemente capazes de segurar a língua nos salões de jogos de Veneza, os famosos ridotti. Criminosos orgulhavam-se da sua capacidade de ficar em silêncio sob o interrogatório. O silêncio mais geral da resistência, conhecido no Sul da Itália como virilidade, omertà, tem sido uma força importante na história da Sicília em particular. O silêncio também é uma forma de administração do conflito. No caso da Itália de hoje, um sociólogo sugeriu que conflitos menores estão associados ao barulho, enquanto as desavenças mais sérias são administradas pelo silêncio. Se alguém gritar quando você bater de leve no carro dele, não é preciso se preocupar. É quando ficam em silêncio que existe motivo para alarme, porque ações podem tomar o lugar das palavras.
E isso nos traz para o motivo do silêncio das pessoas. Em muitas partes do mundo, religião e silêncio estão associados. Essa pode ser uma maneira de mostrar respeitos pelos deuses. Alternativamente, pode refletir uma crença ou uma pressuposição de que as verdades religiosas são inefáveis, impossíveis de expressar em palavras humanas. Na Itália do século XVI, livros de etiqueta frequentemente recomendavam aos leitores que falassem pouco de política, especialmente com pessoas que não conheciam, a fim de não as ofender. A cultura da desconfiança era também uma cultura em que tanto ofender como ser ofendido era extremamente fácil, enquanto muitos adultos carregavam consigo uma adaga, ou pelo menos uma faca. A adaga pode ter saído da moda, mas a tradição do silêncio político continua. Perguntar a um estranho qual o partido político que apoia é considerado inconveniente. Na verdade, até muito recentemente, a palavra Máfia não podia ser ouvida na Sicília, pelo menos em público - até que o tabu foi deliberadamente rompido pelo prefeito de Palermo.
É tentador argumentar que no sul da Europa a política é um assunto tabu, enquanto no norte o tabu é o sexo. Uma vez mais, deveríamos estar atentos para estereótipos simplistas, especialmente na faixa de diferenças norte-sul. Afinal, no século XVI as senhoras italianas eram aconselhadas a tomar extremo cuidado com as possíveis conotações sexuais de seus comentários. Um escritor chegava a recomendar-lhes que falassem de castanhas sempre que na realidade queriam se referir a figos, uma fruta associada à sexualidade. Nesse campo minado de palavras, o silêncio devia ser às vezes a saída mais segura. Não admira que as pessoas costumasse falar do silêncio como uma arte. Ele envolvia muito mais do quer um bom ouvinte!
Peter Burke
